Jesus no Getsêmani

By Vitor Lima

Costumeiramente, falamos sobre um Deus que realiza sonhos, cumpre promessas e opera milagres e maravilhas. Conhecemos com prazer essas facetas do caráter de Deus, experimentamos diariamente seu cuidado e seu carinho por nós, e achamos que nisto se resume a vida cristã.


Porém, se analisarmos com cuidado o evangelho, e até mesmo as nossas próprias vidas, descobriremos outra faceta de seu caráter que a igreja hoje tem tentado esquecer, ignorar, ludibriar... a realidade de que Deus é Soberano. Diante disso, temos que responder dentro de nós, a uma pergunta que é inicialmente perturbadora, mas que pode ser uma libertação em nossa alma. E se Deus não fizer?

Essa é aquela hora onde não tem emoção e arrepio nenhum, não tem cânticos de alegria, aqueles momentos onde só o que temos é a angustia e algumas certezas, que a própria angustia tenta minar. Jesus passou por um desses momentos, sentindo uma angustia tamanha que homem nenhum foi capaz de sentir nesta terra. Em Mateus 26: 36 a 46 percebemos o momento do Mestre no Getsêmani, esse momento onde não havia nenhuma festa, nenhum arrepio, esse momento tão seco, que os discípulos nem conseguiram resistir ao sono, foi exatamente ali, que a maior vitória da humanidade, que as bases de todo plano de salvação, que os princípios que direcionavam toda a missão de Jesus Cristo na terra, eram estabelecidos. Um dos momentos mais importantes do cristianismo aconteceu assim, sem nada.

Não deve ter sido fácil pro Pai, dizer um não pra Jesus. Tanto que ele nem respondeu, permaneceu em silêncio, o mesmo silêncio que participa de muitas das fases de nossa vida, o silêncio que cura, que edifica e amadurece o cristão.

Não precisamos sentir, ouvir, nem ver nada para sabermos que Ele controla tudo. Apesar de toda angustia, Jesus sabia que Sua vontade era o melhor plano, e disse: “todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”. Foi essa postura que tornou grandes, todos os homens da bíblia. Foi confiando em Deus, que Abraão foi justificado, que Moisés libertou todo o povo, que Davi venceu um gigante 2 vezes maior do que ele, que Gideão com 300 homens destruiu um exército inteiro, e que Paulo sofreu inúmeras aflições com alegria.

Deus não quer que sejamos os mesmos crentes sempre, é desejo Dele que seus filhos cresçam, e talvez sua principal arma seja o silêncio. Jesus naquele lugar, não podia contar com seus amigos (estavam todos dormindo), com a voz de seu Pai (a mesma que a 3 anos o havia declarado com filho amado), havia apenas um anjo, que o tentava confortar mas não diminuía sua angústia (Lc 22: 43, 44).

Jesus entendeu o recado de Deus, sua oração foi respondida, e com muita clareza. Ele se levanta, e vai cumprir seu propósito, sem mais nenhuma dúvida, sem nenhuma possibilidade de ratear, desistir. Ele levanta tão firme, que a chegada dos soldados não o descontrola, nem a traição de Judas.

Espero que esta palavra sirva, pra fortalecer nossas certezas, esses momentos nos trazem muitos questionamentos, muitas dúvidas, mas precisamos entender o recado, e ir à luta. O projeto de Deus pra nós é muito maior, grandes coisas estão por vir, grandes coisas estão para acontecer, e Deus quer contar com jovens fortes e firmes.

É chegado o tempo, levantemos e vamos à luta!
 

O AMOR QUE ABRE PORTAS

By Vitor Lima

“E, DESCENDO ele do monte, seguiu-o uma grande multidão. E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. E logo ficou purificado da lepra.”

Mt 8: 1 a 3

A autoridade que havia no discurso de Jesus, era fruto não de uma retórica perfeita, ou de uma capacidade de interpretação e ensino sobrenaturais, mas estava diretamente ligada à sua vida. Jesus não simplesmente falava, mas praticava, vivia o seu sermão! (Mt 7:28 e 29). Essa autoridade causava fascínio aos que o ouviam, pois até então, eles conheciam excelentes oradores, mas nenhuma vida.
A multidão está cansada do discurso, todos já o conhecem, já ouviram; o que a multidão tem desejado ver, é autoridade, é alguém que pregue tão bem com a vida, quanto o faz com as palavras. E essa sempre foi uma das maiores dificuldades da igreja, permitir que o cristianismo tome conta de sua vida, atitudes e pensamentos, e deixe de ser simplesmente uma bandeira que insistimos em carregar.
A primeira frase desse texto é também de certa forma a mais importante dele, pois monta exatamente o cenário, do mestre em ação. Imediatamente após descer do monte, Jesus se depara com um dos maiores desafios daquela sociedade, o leproso.

“Havendo, pois, o sacerdote examinado, e eis que, se a inchação da praga, na sua calva ou meia calva, está branca, tirando a vermelho, como parece a lepra na pele da carne,
Leproso é aquele homem, imundo está; o sacerdote o declarará totalmente por imundo, na sua cabeça tem a praga. Também as vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas, e a sua cabeça será descoberta, e cobrirá o lábio superior, e clamará: Imundo, imundo. Todos os dias em que a praga houver nele, será imundo; imundo está, habitará só; a sua habitação será fora do arraial.” Lv 13: 43 a 46

Os judeus haviam aprendido como tratar os leprosos, mas haviam esquecido o mandamento do amor. Haviam esquecido que antes de serem leprosos, eles eram os “próximos” do mandamento, que antes de eles serem excluídos, estes eram amados por Deus.
Exatamente após expor a lei, Cristo se depara com aquele homem, tão excluído que o simples ato de ir até Jesus, já se caracterizava como um erro, pois eles não podiam entrar no arraial. Ao invés de repreendê-lo, por estar descumprindo a lei, essa mesma lei que estava sendo exposta há pouco tempo atrás, Jesus toma uma atitude que transformaria para sempre a vida do leproso, e impactaria todos ao seu redor. Ele o ama.
A demonstração desse amor dá-se de duas maneiras; inicialmente, não repreendendo aquele homem. Jesus não devia recebê-lo e nem falar com ele, ele era imundo, e Cristo O Ungido. Se havia alguém ali, que poderia se considerar puro, este alguém era Jesus, o único que de fato era superior aquele homem, porque todos os demais eram imundos também, em suas almas. Mas foi o próprio Cristo que o recebeu.
E não parou por aí. Não bastasse falar com um leproso, e recebê-lo dentro do arraial, Jesus toca naquele homem! Rompendo a barreira da discriminação, o Mestre toca o corpo e conseqüentemente a alma do leproso. Ele não era tocado há muitos anos, ninguém se chegava a ele, a família era obrigada a abandoná-lo, e em seu encontro com Jesus ele encontra a cura de sua enfermidade física e emocional.
Jesus não veio à terra para promover assistência social, mas fica claro em seu ministério, que através do que fazemos pelo outro, as portas se abrem para o evangelho. O leproso não subiu ao monte para ouvir o seu sermão, e nem poderia. Se Jesus se limitasse só a pregação, a vida daquele homem continuaria a mesma, mas junto com o Reino de Deus, Cristo levava libertação, o evangelho pregado por Jesus, não visava apenas tirar aquela vida do inferno, mas sim, tirar daquela vida muitos “infernos”.
O amor de Jesus abriu as portas do coração do leproso. Ele foi até Jesus, porque sabia que seria recebido, ele busca o Mestre, porque de alguma forma sabia de Seu amor incondicional por todos. Nós vamos notar no decorrer de todo evangelho que Cristo pouco se esforçava pra pregar, mas sua demonstração de amor abria as portas para a pregação.
E o segredo está exatamente aí. Como levar o nome de Jesus na minha faculdade, no meu trabalho ou na minha casa? Amando. O amor extravagante, capaz de ir onde religioso nenhum vai, e receber àqueles que a igreja prefere deixar de lado. Será que as dificuldades que muitas vezes encontramos em pregar o evangelho, não são decorrentes do fato de abandonarmos este princípio?
Quanto do amor de Deus nós temos demonstrado onde estamos? Quem olha pra nós, sente-se atraído?
Nossa sociedade, a exemplo daquele tempo, ainda é excludente. Os doentes continuam sendo deixados de lado, sem atendimento digno e mínimas condições de sobrevivência, e somam-se a eles, as prostitutas, os drogados, os miseráveis, os moradores de rua, que ao olharem pra nós, não se sentem á vontade como se sentiam com Jesus.
A mensagem de Cristo não mudou. Seus padrões ainda são os mesmos. E a pergunta é, onde os “leprosos” encontrarão quem os toque? A resposta a esta pergunta precisa ser A IGREJA.
Oremos pra que o cristianismo que há em nós, ultrapasse a barreira destas paredes e seja manifesto àqueles que dele necessitam. Há pessoas que precisam do evangelho para ter alguma dignidade, alguma vida de fato, e é esse o nosso papel.
Eu creio que Deus nos dá, para que possamos abençoar. Esse deve ser o sentido de nossa igreja aqui, e de nossa vida cristã.